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COMITÊ DE BEM-ESTAR ANIMAL

BEM-ESTAR ANIMAL - UMA REFLEXÃO

A preocupação com o bem-estar dos animais é uma questão antiga na história dos zoológicos. Hoje pode soar confuso ou contraditório que instituições onde os animais eram mantidos em jaulas, geralmente pequenas, sem ambientação ou estímulos, tratassem sobre esse assunto. No entanto, a ironia é que esse tipo de instalação levava em consideração o bem-estar das espécies que abrigavam ou, melhor dizendo, o que os profissionais dos zoos naquela época acreditavam como sendo o correto para o seu bem-estar. Por exemplo, as pessoas achavam que colocar vegetação nos recintos dificultaria a limpeza e ofereceria riscos de queda caso os animais tentassem escalar as árvores, situações que - obviamente - prejudicariam a sua saúde. Isto significa que a preocupação com o bem-estar dos animais era algo restrito à saúde física, e não mental, dos indivíduos. E se formos pensar um pouco, não poderia ser diferente.

Durante muito tempo, os pesquisadores consideraram características como inteligência, consciência e emoções, atributos únicos do ser humano. Uma crença que permaneceu forte mesmo após Charles Darwin publicar o livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais” em 1872. Foi somente a partir dos anos 1960, com o desenvolvimento de estudos sobre chimpanzés, golfinhos e papagaios, tanto no cativeiro quanto no ambiente natural, que essa crença passou a ser quebrada. Isso não só forçou os profissionais que trabalham com animais a revisarem suas práticas, como também mudou a mentalidade da opinião pública sobre quais são as formas adequadas de tratamento aos animais. Algo que, claro, influenciou os próprios zoológicos.

Os avanços no conhecimento sobre cognição e senciência dos animais estimulou os zoos a reformularem a concepção dos recintos e a considerarem a saúde mental das espécies que abrigam. O primeiro recinto projetado inteiramente dentro desta concepção foi inaugurado no ano de 1978 com o objetivo de abrigar os gorilas no Woodland Park Zoo, em Seattle. Pela primeira vez, esses primatas foram alojados em um lugar com árvores, troncos, rochas e folhas sob seus pés, de forma similar ao que encontrariam na floresta tropical da África (ver Figuras 1 e 2). Este acontecimento tornou-se um marco na história dos zoológicos e firmou o papel e comprometimento destas instituições para com os animais sob seus cuidados.

O papel dos zoológicos atuais vai além da diversão, hoje estas instituições têm a missão de trabalhar efetivamente com a educação ambiental, com a conservação das espécies e com pesquisas. Não deixando o lúdico de lado, porque o aprendizado através deste viés é muito mais prazeroso e duradouro, os zoos podem se aproveitar da paixão e da afinidade que seus visitantes sentem pelos animais e usar isto a seu favor. O trabalho de educação ambiental se torna mais fácil e leve quando é possível visualizar um animal exibindo comportamentos típicos de sua espécie. Estas atividades, por si só, são uma contribuição para a conservação das espécies. Além do mais, existe a participação em projetos de pesquisa que vinculam o estudo de animais sob cuidados humanos aos de vida livre e que resultam em benefícios para as duas partes. Isto permite, por exemplo, a compreensão de aspectos reprodutivos para recuperação de espécies e/ou populações ameaçadas. Um caso emblemático é o do condor-da-Califórnia, que foi salvo da extinção total graças a um programa de criação artificial desenvolvido pelos zoológicos de Los Angeles e San Diego. Os estudos de como essas aves cuidam dos seus filhotes e como estes aprendem com seus pais tornaram-se um componente essencial para o objetivo final do programa, que foi a reintrodução dos condores em seu habitat. Esta é apenas uma das histórias que mostram como os zoos modernos estão seguindo na direção certa e ainda têm o potencial para trilhar um grande caminho, contribuindo com conhecimento, experiência e habilidade para manter a salvo não só as espécies de animais, mas também os biomas onde vivem.

Porém, para que seja possível a realização de atividades de educação ambiental e de pesquisas que juntas resultem em conhecimento, sensibilização e em melhorias para a vida dos animais, é importante que o bem-estar dos animais mantidos sob cuidados humanos seja garantido e para isto é igualmente importante que as instituições que mantêm estes animais tenham o compromisso de promover excelentes níveis de bem-estar a todos os animais de seu plantel.

Entende-se que bem-estar pode ser algo subjetivo, pois sua definição depende também do julgamento de cada um e também, como já vimos na própria história dos zoológicos, de seu tempo, sua cultura e do que vivencia em sua vida. Há várias definições de bem-estar e vários julgamentos com relação a este tema. O bem-estar pode ser definido segundo o dicionário Michaellis, como:

1. Situação agradável do corpo ou do espírito; conforto, tranquilidade.

2. Haveres suficientes para a comodidade da vida.

Neste sentido, para cada pessoa haverá uma definição daquilo que a faz se sentir bem ou com bons níveis de bem-estar. Sendo assim, a definição de bem-estar para o ser humano seria um pouco mais fácil de ser definida, mesmo que este sentimento não seja uma constante na vida de ninguém. E para os animais? Como podemos definir bem-estar? Antes de definir vale lembrar que é importante conhecer a espécie, o indivíduo e/ou o grupo de animais com que se trabalha a fim de garantir não só os melhores cuidados e práticas, mas também uma interpretação mais próxima do real sobre o comportamento de cada um. Broom (1996) afirma que o bem-estar de um indivíduo está relacionado com as tentativas de lidar com seu ambiente. Então, se prestarmos atenção nesta frase, fica claro que é importante dar opções para que os animais façam as suas escolhas e controlem o seu ambiente. Desta maneira, se houver no recinto abrigos, camas, redes, vegetação, poleiros, água, enfim, estruturas apropriadas ao comportamento e necessidades de cada espécie e os indivíduos que ali vivem possam responder, através da expressão de comportamentos naturais, aos vários estímulos com que se deparam ao longo do dia, podemos dizer que vivenciam bons níveis de bem-estar.

Contudo, mesmo quando os animais sob nossos cuidados alcançam bons níveis de bem-estar, não é aconselhável nos acomodarmos. Devemos estar sempre cientes de que necessitamos fazer sempre mais. Lembrem-se, ou melhor, imaginem onde estaríamos caso ainda acreditássemos que os animais precisam de apenas água e comida para terem boas condições de vida. Foi exatamente com este pensamento que Maple e Perdue (2013) cunharam o conceito de “wellness” ou, em tradução para o português, “ótimo bem-estar”. Este conceito encontra expressão no ser humano como a busca constante e consciente de levar a vida ao máximo do seu potencial. O mesmo, como mostram os autores, ocorre com outras espécies de animais e pode ser alcançado dentro dos zoológicos e aquários. Isto significa que, além de darmos opções para os animais controlarem seu ambiente e exercerem suas habilidades naturais, devemos pensar em tudo que pode influenciar negativamente suas vidas. Com um contexto mais amplo, o “wellness” não é apenas uma prática, mas uma filosofia que guia as ações das instituições desde a concepção e construção dos recintos, até os cuidados diários, incluindo sessões de treinamento e procedimentos veterinários. Ao fazermos, o bem-estar deixa de ser algo obrigatório no zoo ou aquário e torna-se inerente para os animais, funcionários e o próprio público. Com o objetivo de melhorar a vida dos animais que vivem sob nossos cuidados, o Comitê de Bem-Estar Animal da AZAB tem a missão de auxiliar as instituições associadas na implementação de práticas de bem-estar positivo através de artigos, textos explicativos e de ideias de enriquecimento ambiental, que serão divulgadas no site da AZAB. Fiquem de olho!

 

MISSÃO, VISÃO E VALORES DO COMITÊ DE BEM-ESTAR:

Missão: Informar, inspirar e incentivar os zoológicos e aquários brasileiros a alcançarem padrões de excelência em bem-estar animal.

Visão: Ser referência na geração e disseminação de conhecimentos teóricos e práticos para a promoção do bem-estar ideal até o ano de 2025 e através deste conhecimento, influenciar e direcionar as mudanças necessárias para que as instituições brasileiras possam promover o bem-estar ideal para todos animais sob seus cuidados.

Valores:

  • Busque o conhecimento e mantenha-se sempre atualizado: a ciência é a nossa base;
  • Conheça o comportamento das espécies e o habitat em que vive;
  • Compartilhe seu conhecimento;
  • Inspire boas práticas através do exemplo;
  • Incentive o estudo, a criatividade e a perseverança em prol do bem-estar dos animais;
  • Abrace e conduza as mudanças necessárias para gerar bem-estar positivo nos animais;
  • Não se acomode: nada está bom o bastante que não possa melhorar;
  • Faça mais usando menos;
  • Valorize o trabalho em equipe;
  • Acredite que seu papel é essencial para a mudança;
  • Seja resiliente: para toda dificuldade existe uma solução;
  • Seja profissional, ético e humilde;
  • Considere e respeite sempre a senciência dos animais não humanos;
  • Foque na saúde única - conexão entre as saúdes animal - ambiental - humana

CONHEÇA O NOSSO COMITÊ

CONTATO: comitedebemestar@azab.org.br

Cynthia

CYNTHIA FERNANDES CIPRESTE

Formada em biologia pela PUC Minas, trabalha há 20 anos com comportamento animal, enriquecimento e condicionamento no zoológico de Belo Horizonte.

Andréa

ANDRÉA MORAES PRADO

Bióloga pós-graduada em Conservação e Manejo de Vertebrados Marinhos, com experiência em bem-estar animal em diversos zoológicos privados ou não, responsável técnica pelo Zoológico de Paulínia-SP 2009-2013 e pelo ZooSBC de 2005/2009 – 2015/2016. Colaboradora com colunas referentes a educação ambiental no Diário do Grande ABC 2008-2009, Jornal Novo Noroeste (RS) 2006-2010 e no Paulínia News em 2010. Atuante também na área de manejo, criação de filhotes órfãos e voluntariado em diversos projetos de grande renome e atualmente exerce trabalho voluntário em condicionamento animal em zoológico. Membro do comitê de bem-estar da AZAB desde 2013.

Cristiane

CRISTIANE SCHILBACH PIZZUTTO

Médica veterinária formada pela USP; Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado pela USP; Presidente da Comissão Técnica de Bem-estar Animal do CRMV-SP; Professora de Reprodução de Animais Silvestres na FMVZ - USP; Atua na área de bem-estar e enriquecimento ambiental de animais silvestres há mais de 20 anos.

Cristiano

CRISTIANO SCHETINI DE AZEVEDO

Possui graduação em ciências biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (2000), graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002), mestrado em Zoologia de Vertebrados pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004) e doutorado pelo programa de pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre (UFMG - 2010), pesquisador da Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte e professor adjunto da Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência na pesquisa de Zoologia, com ênfase em comportamento animal, bem-estar e conservação das espécies. 

HELEN 3

HELEN COLBACHINI

Formada em Biologia com habilitação em Biologia Marinha e em Gerenciamento Costeiro pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) e tem mestrado em Zoologia também pela UNESP, onde desenvolveu estudos sobre o bem estar de tubarões. Desde 2016 trabalha como responsável pelos setores de Bem Estar Animal, Conservação e Pesquisa do Aquário de São Paulo. E no último ano tornou-se membro do Comitê de Aquários da ALPZA (Associação Latino-Americana de Parques Zoológicos e Aquários).

Henrique

HENRIQUE LUIS DE PAULA E SILVA DE ALMEIDA

Possui Graduação em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG (1997) e Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, pela Rede PRODEMA/Universidade Federal do Ceará (2002), além de cursos de formação complementar em design de recintos em zoológicos, bem estar animal e sistemas ecológicos para tratamento de água. Gerente Técnico da Empresa Terramare, Consultoria, Projetos e Construção de Aquários e Assessor do Aquário de Ubatuba desde 2005. Assessor técnico do Instituto Argonauta para Gestão dos Aquários da SABINA – Santo André/SP desde 2015. Auditor da AZAB para Certificação de Bem-Estar de Zoos e Aquários. Tem experiência em Design de recintos Aquáticos e Sistemas de Suporte à Vida para tratamento da água de Aquários e CETAS; Gerenciamento Técnico de Aquários, visando Bem Estar Animal, Educação Ambiental e Sustentabilidade.

Maria Fernanda

MARIA FERNANDA NAEGELI GONDIM

Médica Veterinária, formada pela Universidade Federal de Viçosa, mestre em Ciência Animal pela Universidade Vila Velha. Pós-graduada em Clínica Médica e Cirúrgica de Animais Selvagens e Exóticos pela Qualittas. Experiência em Resgate de Fauna e Projetos de Conservação in situ. Experiência de três anos como Médica Veterinária e Responsável Técnica pelo Parque Vida Cerrado (Criadouro Cientifico para Fins de Conservação na Bahia). Há pouco mais de 1 ano atua como Médica Veterinária e Responsável Técnica pelo Zooparque Itatiba-SP.

Marisa

MARISA VIEIRA DE CARVALHO

Bióloga, especialista em etologia, mestranda em Saúde Animal na Universidade de Brasília - UnB, trabalha no Núcleo de Bem-estar Animal da Fundação Jardim Zoológico de Brasília há 7 anos. Responsável pelos condicionamentos dos animais, pelos enriquecimentos ambientais e por observações e pesquisas relacionadas aos comportamentos dos animais.